abril 16, 2011

Dilúvio de Capitais

A discussão sobre controles de fluxos de capitais e a operação de política econômica em ambientes de excessiva entrada de capitais externos presente no Brasil me fizeram lembrar de um artigo já famoso, descrevendo os fatos estilizados sobre o comportamento da economia e, mais especificamente, da política econômica em tempos de abundância de recursos externos. Graciela L. Kaminsky, Carmen M. Reinhart e Carlos A. Vegh, em artigo publicado no NBER Macroeconomics de 2005 apresentam as características de 104 economias em termos de ciclos econômicos, política monetária e política fiscal quando uma "chuva de recursos externos" invade o país.

Os resultados são particularmente interessantes para descrever a situação atual da economia brasileira: uma economia emergente atingida por diversos choques positivos (crescimento dos termos de troca, redução das taxas de juros para empréstimos no exterior, alto crescimento das economias parceiras em termos de comércio) tem que lidar com uma entrada massiva de recursos externos. Neste cenário, a "chuva" de recursos costuma gerar inundações: de acordo com os autores, diante da entrada de capitais externos, a política econômica de países emergentes possui caráter claramente pró-cíclico.

O abstract do texto, neste sentido, é bastante claro sobre os resultados da análise:

"Based on a sample of 104 countries, we document four key stylized facts regarding the interaction between capital flows, fiscal policy, and monetary policy. First, net capital inflows are procyclical (i.e., external borrowing increases in good times and falls in bad times) in most OECD and developing countries. Second, fiscal policy is procyclical (i.e., government spending increases in good times and falls in bad times) for the majority of developing countries. Third, for emerging markets, monetary policy appears to be procyclical (i.e., policy rates are lowered in good times and raised in bad times). Fourth, in developing countries - and particularly for emerging markets - periods of capital inflows are associated with expansionary macroeconomic policies and periods of capital outflows with contractionary macroeconomic policies. In such countries, therefore, when it rains, it does indeed pour."

O fato mais curioso dos resultados é o comportamento da política econômica nos tempos de entradas de capital: é surpreendente, e uma pauta de pesquisa ativa na academia, o fato de tanto a política fiscal quanto a monetária serem expansivas com a entrada de recursos externos, dado que, em tese, o ótimo para a população seria alguma forma de "alisamento" do consumo ao longo do tempo ("consumption smoothing"). Em outras palavras, a política econômica deveria buscar a redução da volatilidade dos ciclos econômicos, de tal forma que os gastos dos agentes fossem mantidos em níveis próximos tanto em períodos de recessão quanto de prosperidade.

Vale a leitura.

Abraços!

2 comentários:

Iury disse...

Ótima leitura mesmo.

Um preciosismo: ao invés de "alisamento" eu usaria "suavização".

Tenho estudado preferências assimétricas de autoridades monetárias. Vou tentar incluir uma variável que capture o efeito do influxo de capital externo no modelo e ver o que acontece.


Abraço!

Angelo M. Fasolo disse...

Faltou a palavra, mesmo, na hora de escrever... fiquei pensando um tempo, lembrava que existia já uma expressão no português, mas o maldito "smoothing" ficava na cabeça.

Obrigado pela visita, Iury, e boa sorte na pesquisa.

Abraços!