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junho 08, 2011

Mais Chari

Tive acesso hoje aos vídeos do último Seminário de Metas para Inflação e resolvi, ao invés de ficar apenas na frase de V.V. Chari citada no último post, trazer a transcrição (feita por mim) de dois trechos muito legais do que ele falou.

Primeiro, sobre a crise financeira de 2008, uma diferenciação importante sobre risco privado e risco social, e (falta de) soluções fáceis através de política econômica:

"Markets did not privately under price the risk, markets correctly priced the risk, because they correctly perceived that the risk was extremely small. The risk may have been large for society overall, but it was not large for each individual, person planning to do the investment. To people who say 'markets just under priced risk, markets are stupid!', I say yes, that's certainly a possibility, markets get the wrong answer lots of different times. But you got to remember: markets consists of thousands, sometimes hundreds of thousands of participants. So, there are these guys who are just stupid, idiots. And then we are going to find ten selected policy-makers. Bingo! These guys are going to be smart, these guys are going to figure out exactly what is going on, these guys are going to understand risk. And they are going choose to do all this by the modest sum – I think the Federal Reserve Board members are paid – 185 dollars when they could go out to the market and using all that incredible smartness to make 185 billion dollars! But, of course, they are public servers, so they will do all those kind of things..."

A diferença entre risco privado e social deve-se, segundo Chari, exatamente por causa da percepção por parte dos bancos, que assumiam empréstimos de risco, que seriam salvos. Ou seja, todos os agentes se comportavam de forma racional, dado o desenho do mercado de crédito nos EUA.

Mais tarde, a lição sobre política monetária:

"I always thought that the first attribute of a Central Banker is humility. Inflation targeting is an expression, not of arrogance, but of humility. There are things that Central Banks are good at doing: inflation. And we understand that, and we promise we are not going to look at that. The counterpart of that humility is that Central Bankers can not resolve the problem of AIDS, can not erase poverty in Africa, can not prevent the erosion of the Amazon forest and have only a limited effect on aggregate output. That is the first attribute of rational intelligent Central Bankers."

Abraços!

abril 18, 2011

Um Bom Ditado Popular

Sabe aquele ditado popular que afirma "de onde menos se espera é de onde não sai nada mesmo"? O ditado é tão bom que a sua negativa também se comprova, como neste texto do Paulo Springer no blog que fiz a propaganda abaixo, Brasil, Economia e Governo.

O resumo do post, ou um título alternativo: "Tudo o que você gostaria de saber sobre política monetária no Brasil, e tinha medo de perguntar".

De fato, de onde se espera muito é de onde sai coisa boa, com certeza!

Abraços!

janeiro 24, 2010

Notas de Um Blog Parado

Blog parado. Para quem acompanha a viagem desde o começo, deve estar se dando conta que o fim pode estar próximo. Para tirar um pouco a poeira da bodega, algumas notas:

1) Para os pais de primeira viagem que curtem música, uma dica que vale muito a pena: uma coleção de cd's com regravações de clássicos do rock em versão de canção de ninar. Compramos para Bia um dos cd's da coleção com regravações de Pink Floyd. Ela adora as versões de Time, Wish You Were Here e Mother. As versões são muito bem feitas, e existem cd's de regravações de outros artistas, como Guns'n'Roses, Beatles, Rolling Stones, Queen, AC/DC, Led Zeppelin e Metallica.

2) Também tenho trabalhado muito na tese. Por não ter o compromisso de participar do processo do Job Market, o departamento não me pede para colocar todo o meu trabalho no ar. Entretanto, espero, daqui alguns dias, colocar ao menos a nota técnica do modelo base dos papers que estou elaborando. Como o modelo é relativamente comum, não tenho preocupações com plágio (isto, garanto, apavora os meus colegas). O importante do meu trabalho é o que faço com o modelo, e não o modelo em si. Além disso, sei de leitores que apreciariam acompanhar um pouco da álgebra para a construção de um modelo como o que eu estou mexendo.

3) Não tenho tido tempo de ler o noticiário do Brasil, e quem me criticar pela minha falta de opiniões a respeito, é um babaca!

4) No front local, muita discussão sobre se Ben Bernanke deve ficar ou não no comando do Fed. Está muito fácil de coletar opiniões a favor, contra, ou mesmo neutra sobre o tema; logo, não perco meu tempo com isto. Uma nota que achei muito interessante, e que diz respeito ao processo de decisão no serviço público de uma maneira geral, está no Blog do Mankiw. Muitas vezes, o que já se discute à portas fechadas nos departamentos técnicos do serviço público acaba explorado de forma política por conveniência.

5) Nos esportes, hora de observar mais o basquete, já que o futebol americano está perto do seu final, com as disputas das finais de conferência hoje, e o Super Bowl no dia 7 de fevereiro.

Abraços!

janeiro 09, 2010

A Instrução 70 da Venezuela

A notícia das medidas cambiais na Venezuela me lembrou demais das aulas de história econômica do Brasil e as discussões intermináveis e chatas sobre a famosa "Instrução 70 da SUMOC". Digo, intermináveis e chatas para quem acha que o Brasil ainda precisa de instrumentos neste sentido, e tentam provar que este tipo de política funciona.

Notem que, na época, a taxa de câmbio mais desvalorizada no Brasil buscava estimular as exportações de café. Troquem "café" por "petróleo" e estamos muito próximos do atual caso venezuelano.

Abraços!

setembro 27, 2009

Conselho de Segurança: Uvas Verdes

Só posso me lembrar de Esopo lendo esta notícia. Para resumir, a raposa está dizendo: se o clube me aceitar, sou um mestre; se não permitir a minha entrada, as uvas estão verdes, mesmo.

Abraços!

setembro 25, 2009

Índio Vai Ser Preso...

... ou o STF foi feito de trouxa. É só o que eu posso entender desta matéria. Senão, vejamos:

1) De acordo com a decisão do STF, "a utilização das terras deve ser limitada, com respeito ao meio ambiente e às riquezas naturais, e também com a presença de forças policiais e Armadas."

2) Logo, plantar arroz, como faziam os fazendeiros, seria, entre outras coisas, um "desrespeito ao meio ambiente", como afirmariam grupos católicos.

3) Desta forma, se os arrozeiros foram colocados para fora porque, entre outras coisas, esgotavam os recursos ambientais com suas plantações, existe algum motivo para aquilo que os índios pretendem ser considerado legal?

Abraços!

setembro 13, 2009

Assim, Não, Canzian

Já elogiei por aqui algumas colunas na Folha Online do jornalista Fernando Canzian, correspondente do jornal aqui nos Estados Unidos (aqui e aqui). Na coluna deste domingo, não dá. Mesmo.

Comemorando (???) o primeiro aniversário da crise econômica, o jornalista propõe uma análise de "vencedores x vencidos" desde o início da recessão. Na lista dos "vencedores", três vilões eternos das esquerdas: os banqueiros, os bancos e os investidores do mercado financeiro (sim, a coluna está ruim deste jeito). Os banqueiros ganharam, pois não foram presos; os bancos ganharam porque foram salvos; e os investidores que mantiveram posições em ações ganharam porque as ações começaram a subir de novo.

Na lista dos vencidos, o "povo" (chamado pelo jornalista de "a grande maioria") e Barack Obama. "A grande maioria" perde porque terá que pagar mais impostos para financiar o salvamento dos bancos e porque vai conviver com mais tempo de desemprego elevado. Barack Obama perde porque a economia fraca derruba os seus índices de popularidade.

Por partes:

1) banqueiros devem ser presos por empréstimos alavancados tanto quanto políticos de Washington que criaram leis permitindo que Fannie Mae e Freddy Mac fizessem empréstimos sob critérios (e riscos) semelhantes. Ou seja, não devem ser presos, basicamente, porque, por mais imoral que seja a conduta, seus comportamentos foram legais. A diferença pode ser sutil no hemisfério sul, mas faz toda a diferença sob o chamado "Estado democrático de direito".

2) os bancos se recuperaram porque o valor de seus ativos parou de cair, e por tomar vantagem em transações que apenas grandes operadores têm acesso (não subestime o crescimento do faturamento das instituições sob o chamado "high-frequency trading" neste período de estabilização/retomada dos preços dos ativos). Cabe lembrar que alguns dos bancos ajudados já pagaram pelo auxílio governamental, para não ter supervisão governamental adicional.

3) os investidores que mantiveram posições estão tão bem quanto os bancos. Fizeram uma aposta, mantiveram posições. Se tivessem vendido, estariam mal. Qual o problema em especular corretamente? Se não foi feito através de operações ilegais (informações privilegiadas, etc), qual o problema?

4) "a grande maioria" está perdendo, mas ganhou quando pode fazer os empréstimos para comprar casas maiores; "a grande maioria" está perdendo, mas ganhou quando pagou menos impostos para financiar um nível de gastos do governo claramente incompatível; "a grande maioria" está perdendo, mas aqueles que mantiveram suas posições em ações (ver o item 3) estão ganhando uma folga no valor dos seus ativos.

5) Barack Obama está perdendo por causa das discussões sobre o sistema de saúde. A proposta do governo, talvez mais do que toda a ajuda que foi oferecida aos bancos, é capaz de levantar o endividamento americano para níveis aí sim substanciais. Saúde é um problema sério no país, consome uma parcela cada vez maior do orçamento das famílias americanas, mas a forma como o governo conduz o debate é, para dizer o mínimo, catastrófica. E aí está a raíz da impopularidade de Obama.

Além disso, para seguir a lógica deturpada de Canzian, Obama estaria se dando um tiro no pé, ao reapontar Bernanke para o novo mandato no Fed - justamente o arquiteto da ajuda governamental aos bancos. Ou seja, a culpa pela falta de popularidade de Obama seria... Barack Obama!

Ai, ai, ai... assim, não, Canzian.

Abraços!

agosto 02, 2009

Recapitulando

Para retomar o fio da meada (uia, expressão antiga), já que os meus oito leitores fiéis insistem em visitar o cantinho aqui, mais algumas notas, muitas no estilo "Carangos e Motocas" (uia, mais antigo ainda!).

1) "Eu te disse, eu te disse", que Obama não dava a mínima para o etanol brasileiro. Não adianta fazer beicinho e procurar jornalista para dar discurso para justificar os próprios fracassos.

2) "Eu te disse, eu te disse" que a mensagem da caneca fazia sentido, ainda que o "I love my country" seja uma proposição cada vez menos defensável.

3) Muito bons os programas da Qtv no YouTube (também disponível para download via iTunes). Destaques para a entrevista com o Lewis Black, comediante americano, onde se fala do papel da crítica política feita por comediantes, e o video abaixo, com uma hora de entrevista com o pessoal do Rush. Nesta entrevista, uma olhada pela carreira da banda, a influência de Ayn Rand nas letras, o quase-fim da banda e a retomada das turnês.




4) Tomara que as buscas dêem certo, que o pior não tenha acontecido, e que Gabriel Buchmann possa ser resgatado com vida. Agora, para o problema que o Cláudio destaca, só existe uma correção possível: o reembolso. Qualquer coisa diferente disto gera dois problemas econômicos bem conhecidos: "rent-seeking" (a apropriação por particulares de bens e recursos que são públicos) e o "moral hazard" (para que evitar viagens de risco se é sabido que o governo brasileiro vai mandar equipes de resgate?). Estou "viajando" na solução? Não.

5) Outro dia, o Jon Stewart tirou sarro de alguém, dizendo que, se até o Glenn Beck pediu para o interlocutor manter um pouco da calma, já é um sinal do quão aloprado o interlocutor é. Pois bem, agora até o Paul Krugman pediu para o ídolo da heterodoxia econômica brasileira, Willem Buiter, um pouco de comedimento nas suas opiniões sobre Larry Summers. Quando até Paul Krugman pede um pouco de calma...

6) Ainda sobre o Jon Stewart, no link que eu coloquei acima, quando até Jon Stewart faz críticas à forma que um governo democrata tratou a questão do racismo na prisão do professor de Harvard, é porque tem algo muito "f* up" na atuação deste governo neste episódio...

7) Pesquisa andando. Devagar. Mas está andando. Eu juro! Estou falando sério!!!!! Pare de rir!!!! Cada vez mais me sinto como a pobre estudante nesta tira do PhD Comics.

Fico por aqui. Não prometo regularidade, mas eu volto.

Abraços!

junho 30, 2009

junho 01, 2009

Transferência de Responsabilidade

Chris, como é que anda a minha tese? Está saindo tudo direitinho? Os papers estão no prazo?

Parece que agora isto é a praxe: ligar para os outros para saber daquilo que é unicamente sua responsabilidade.

Abraços!

maio 21, 2009

Sem-Vergonhice Não Cai do Céu

A notícia: "DNA comprova: mulher deu à luz gêmeos filhos de pais diferentes".

O comentário:

"Faltou Deus no coração dessa pobre mulher, que está enfeitiçada pelo demônio. Participou do impróprio da carne e o santanás a cobrou com um filho de cada homem, homens esses que já estão com o seu destino para o inferno por se permitem tal sujeira.

Só Jesus Cristo Salva. Se arrependa dos seus pecados, a partir da contribuição do seu dízimo, pois só assim iremos mudar essa terra mudana.

Aleluia!"


A primeira impressão, ao ler o comentário, é que algum picareta está tentando juntar fiéis ao seu rebanho, em tentativa de salvar (o seu) mundo, através da área de comentários da notícia. Entretanto, dada a frequência com que estes comentários aparecem, eu me pergunto como é possível o brasileiro médio ainda manter a percepção de que os eventos desagradáveis, ainda que resultantes de escolhas individuais, são consequência da "falta de Deus no coração", ou do "demônio no corpo da pessoa".

Dois pontos sobre esta frase: 1) sim, é uma percepção do "brasileiro médio", pois se aqueles que possuem acesso à internet no país escrevem isto, não vejo motivos para que os mais pobres pensem algo muito diferente. 2) sim, o caso da mulher é um problema de escolhas individuais (ela podia se manter fiel, ninguém colocou uma arma na cabeça dela obrigando que fizesse sexo com mais gente).

Retomo. Estados ruins da natureza acontecem. Não é possível, por exemplo, prever uma doença como o câncer ou antever enchentes em Santa Catarina. Estes eventos, cada um atribui ao que lhe seja mais conveniente (Deus, Diabo, sorte, azar, Maomé, Buda, Cacique Cobra-Coral, unha encravada). Entretanto, o fato da mulher ter gerado dois filhos completamente diferentes, ainda que tenha uma probabilidade de ocorrência muito pequena, é resultado único e exclusivo das suas ações: se ela não tivesse um amante, não teria o segundo filho, por definição.

Atribuir a quem quer que seja as consequências indesejáveis de desvios de comportamento individual é um fenômeno bem mais frequente do que se imagina: "não estudei, fui mal na prova, mas é porque a professora me persegue"; "o guarda me multou pela falta do cinto de segurança só porque ele quer tentar arrancar um suborno"; "o marginal que sequestrou um ônibus só fez isto porque o Estado prefere fazer presídios a fazer escolas"; "o Congresso é uma porcaria, não faz nada, mas eu voto no deputado mensaleiro porque ele coloca meu filho como assessor do vereador da cidade onde moro".

Tantos exemplos, muito para um pobre país.

Abraços!

maio 16, 2009

Falta de Assunto?

Tem um morto-vivo que vaga pelo mundo dos blogs escrevendo coisas incompreensíveis, muitas vezes até impossíveis de serem provadas (justamente por serem ridículas) e que, de tempos em tempos, consegue virar tema em blogs de economia/política. O interessante é que as respostas aos seus posts ("respostas" = "fazer piada") parecem aparecer em ondas, com diversos blogs respeitáveis pegando trechos de seus hieróglifos para garantir a piada do dia.

Eu sei: é divertido! Eu sei: precisamos de alguém para manter a nossa auto-estima em alta! Eu sei: é reconfortante saber que existem pessoas cujos textos nos fazem parecer um pouco mais inteligentes! Mas tem uma hora que é preciso dizer: chega!!!

E não adianta mandar link de nenhum texto desta praga para cá, que eu nem leio o comentário. Vai direto para o lixo.

Abraços!

abril 28, 2009

Ainda dos Rótulos

Um observador atento pergunta se, ao trazer o debate sobre os modelos de equilíbrio geral nas versões neo-clássica e novo-keynesiana (ou a quase equivalência das suas metodologias), eu não estaria legitimando o processo de rotulação das idéias e, indiretamente, aprofundando as (ou "solidificando o nó" das) diferenças dentro do espectro econômico.

Na verdade, não, não estou reafirmando as diferenças, tendo em vista que, nesta literatura, a designação "neoclassical" e "new-keynesian" é mais usada como um "transmissor de idéias" do que um rótulo ideológico. Assim, na apresentação de um paper na área, sempre se lê uma frase do tipo "o modelo que desenvolvemos é uma variante do modelo de real business cycles" (exemplo aqui, na página 3, segundo parágrafo: "we feed the estimated stochastic volatility process for real interest rates in an otherwise standard small open economy business cycle model"), ou "o modelo segue a linha novo-keynesiana" (exemplo aqui, na página 2, terceiro parágrafo: "The paper is structured as follows. Section 2 outlines two versions of a five-equation New Keynesian DSGE model along the lines of Woodford (2003) that differ with respect to the monetary policy rule."). No primeiro exemplo, mesmo sem ler o resto do artigo, já tenho a idéia do trabalho com preços totalmente flexíveis. No segundo exemplo, já sei que, além das equações de Euler descrevendo os comportamentos inter e intratemporais, vai ter alguma curva de Phillips falando da dinâmica de preços.

E as diferenças metodológicas terminam por aí. Não se lê, ao longo do paper, referências a algum livro de 1936, ou um paper do início dos anos 70, tentando reescrever aquelas idéias.

É bem diferente, por exemplo, deste texto aqui (ok, o exemplo pode não ter sido muito feliz, mas faz a linha ideológica da rotulação), onde cada equação é justificada por um parágrafo de um texto de 70 anos atrás. Nada contra os textos antigos, mas será que a ciência ficou parada nos últimos 70 anos?

Abraços!

abril 26, 2009

Da Inutilidade dos Rótulos

"Você é neo-clássico, monetarista, keynesiano, novo-keynesiano, pós-keynesiano ou austríaco?"

Os blogs de economia, especialmente no Brasil, têm se transformado em uma guerra de rótulos, ao invés de idéias. A pauta mais comum em muitos debates econômicos, ao invés do problema em questão, é assumir (e atribuir ao debatedor) a participação em alguma seita cujos membros lêem os mesmo livros dos mesmos autores. O problema econômico, muitas vezes, é deixado de lado, e o debate converge para o enquadramento do oponente em alguma outra seita que, por conceito (na visão do proponente do debate), está errada na sua análise.

O debate entre neo-clássicos e novos-keynesianos, por exemplo, me parece de uma irrelevância fora do comum. O modelo básico novo-keynesiano (pense na estrutura de preços à la Calvo (1983), por exemplo) nada mais é do que o modelo neo-clássico de crescimento com um processo estocástico derivado de micro-fundamentos para o comportamento de preços e inflação. Tanto isto é verdade que, diante do ajuste do "parâmetro de Calvo" para um valor específico, o modelo todo converge para a estrutura neo-clássica, com otimização intertemporal na alocação entre consumo e investimento, as mesmas restrições a esquemas Ponzi e a mesma alocação no equilíbrio competitivo.

Ainda que as interpretações de alguns fenômenos sejam diferentes, a maior parte das recomendações sobre políticas derivadas destes modelos é muito parecida. Uma boa resenha das diferenças pode ser encontrada em Chari, Kehoe e McGrattan (2008). Ainda que o texto seja uma avaliação dos modelos novo-keynesianos a partir de uma perspectiva neo-clássica, os autores reconhecem:


"This critique should not diminish the fact that the areas of agreement among macroeconomists are now significant. In terms of methodology, we agree that in order to do serious policy analysis, we need a structural model with primitive, interpretable shocks which are invariant to the class of policy interventions being considered. In terms of the models themselves, most macroeconomists now analyze policy using some sort of dynamic stochastic general equilibrium (DSGE) model. This type of model can be so generally defined that it incorporates all types of frictions, such as various ways of learning, incomplete markets, imperfections in markets, and spatial frictions. The model’s only practical restriction is that it specify an agreed-upon language by which we can communicate, a restriction hard to argue with. An aphorism among macroeconomists today is that if you have a coherent story to propose, you can do it in a suitably elaborate DSGE model.
Macroeconomists are also beginning to agree on the nature of the reduced-form shocks needed to be included in a model in order for it to fit the data. In our 2007 work (...), we have argued that two particular reduced-form shocks play a central role in generating U.S. business cycle fluctuations. The efficiency wedge, at face value, looks like time-varying productivity. The labor wedge distorts the static relationship between the marginal rate of substitution of consumption for labor and the marginal product of labor. A consensus appears to be emerging on the importance of these two reduced-form shocks over the business cycle. This emerging consensus implies that we need to develop structural models which generate these wedges from primitive, interpretable shocks.
Macroeconomists also now broadly concur on two desirable properties of monetary policy. One is that the success of policy depends on policymakers’ commitment; the other, that interest rates and inflation rates should be kept low on average. More practically, most macroeconomists are comfortable with some form of inflation target with well-defined escape clauses."


A síntese da crítica neo-clássica se encontra nas hipóteses novo-keynesianas a respeito da origem dos choques, do tamanho dos modelos e da mensuração de alguns choques. Quem não é muito fã de modelos de otimização intertemporal encontra-se fora do debate, basicamente por falar uma "linguagem estranha", onde o mundo se dá o direito de não respeitar (ou o modelo, de esconder) restrições elementares e identidades macroeconômicas básicas (sim, este recado se aplica ao já famoso artigo do professor Buiter).

No Brasil, esta divisão assume uma desproporção incomum. Não vou citar exemplos, mas quem anda pela blogosfera econômica brasileira sabe do que falo. O debate se resume aos seguintes passos:

1) Proposição do problema, feita pelo autor do texto, com uma resposta parcial à questão;

2) Um contra-argumento de algum leitor baseado naquilo que seu grupo leu, muitas vezes ignorando por completo a argumentação original.

3) Uma resposta do autor, citando autores da "sua turma".

4) O enquadramento de ambos debatedores em algum grupo, e a conclusão (sofrível) que o problema não terá uma resposta porque, obviamente, os participantes vêem o mundo de maneira muito diferente e, conclusão derivada, acham que o outro estará sempre errado, por definição.

O debate, neste caso, assume uma dinâmica altamente ineficiente: por um lado, problemas novos lançados à discussão resultam na recuperação do debate anterior entre as "seitas" ("você nunca vai entender isto porque é da seita X"); por outro lado, os problemas antigos não encontram nunca uma resposta relevante, ou um denominador comum de análise, porque o debate sobre o problema em questão foi abandonado, ainda no estágio metodológico, em favor da rotulação mútua. E, o que é pior, muitas vezes o abandono do debate ocorre mesmo quando as diferenças metodológicas são imperceptíveis, como destacado no trecho de Chari, Kehoe e McGrattan (2008).

E que fique claro: a rotulação inútil ocorre não apenas na economia, mas na política, na sociologia, no futebol... tudo se reduz não ao que se pensa, mas ao que consta na carteirinha de sócio do clube.

"Você é neo-clássico, monetarista, keynesiano, novo-keynesiano, pós-keynesiano ou austríaco?"

Macroeconomista.

Um abraço!

abril 15, 2009

ONU e Columbine

Para recuperar o tempo fora do ar, duas matérias no USA Today de ontem dão o que pensar:

1) Não interessa onde: dê o dinheiro sem a fiscalização necessária, e a porcaria está feita. Depois os EUA reduzem a importância de agências multilaterais, como a ONU, e isto vira "imperialismo", "arrogância", e outros adjetivos bastante lidos na imprensa brasileira. E vale dizer: a ONU torrou dinheiro do governo americano em planos de apoio no Afeganistão; será que o Brasil vai se importar se o dinheiro que está depositando no FMI tiver destino parecido?

2) Ao invés de "revoltados contra colegas", "desprezados da turma", "motivos de chacota" e "nerds de videogame", assassinos. Isto é o que sobra das investigações depois de 10 anos da tragédia em Columbine.

Abraços!

março 02, 2009

"Ditabranda": A Folha Errou

Sim, você leu certo o título deste post. E não, você não está na webpage de algum pau-mandado de certo partido (como quem frequenta o blog sabe). Se tiver curiosidade para entender o meu argumento siga lendo. Antes, uma explicação.

Para quem não acompanhou o debate (e eu estou chegando muito atrasado nesta história, desculpe), a Folha de São Paulo, no editorial do dia 17 de fevereiro, ao tratar do último referendo elaborado pelo governo Chavez na Venezuela, chamou o regime brasileiro no período entre 1964 e 1985 de "ditabranda". De acordo com o editorialista, estes regimes partem "de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça". Esta classificação do regime brasileiro resultou em muitos protestos e até em uma passeata que deve acontecer por estes dias.

O argumento de quem critica ou apóia o uso da expressão está baseado na PREMISSA que o termo foi empregado para, em resumo, comparar o número de execuções entre as diferentes ditaduras latino-americanas. Assim, de acordo com a PREMISSA, Pinochet seria o chefe de uma "ditadura de verdade", enquanto os generais brasileiros, por terem executado muito menos gente, teriam comandado uma "ditabranda".

Voltando ao início do texto, eu reafirmo: a Folha de São Paulo errou! E o erro não está no uso do termo (não é um neologismo ou uma piada sem graça, como muitos dizem), como também não errou ao aplicá-lo para o Brasil. Pois bem, onde está o erro da Folha de São Paulo?

O erro da Folha de São Paulo encontra-se no mau uso de uma expressão consagrada na literatura de ciências políticas a respeito de transições de regimes autoritários para democracias. Os precursores da expressão são os cientistas políticos Guillermo O'Donnell e Philippe Schmitter, que criaram as expressões "dictablanda" e "democradura" (O'Donnell é argentino, daí por que as expressões em espanhol) para descrever duas formas de TRANSIÇÃO de regimes autoritários para formas imperfeitas de democracia. No primeiro caso, a "dictablanda" é caracterizada por um ditador que permite, na transição para um regime democrático, algumas liberdades individuais que em um regime ditatorial comum não seriam concebíveis (o número de execuções, como os carniceiros brasileiros fazem questão de citar, também está incluído como característica; mas é só UMA das características). No segundo caso, a "democradura" seria caracterizada por um regime de eleições e liberdades individuais, mas cuja organização, partido ou instituição que controlasse o poder durante o período ditatorial ainda exercesse forte influência na agenda política.

Os autores formularam estas idéias em um livro publicado em três volumes (infelizmente eu os deixei no Brasil, então estas conceituações que estou passando são um resumo do que encontrei na internet), cujo objetivo era compilar textos que tratassem de processos de transição de regimes autoritários ao redor do mundo. O título do livro é "Transitions from Authoritarian Rule", e foi editado e re-editado milhares de vezes, com os textos de um seminário organizado nos anos 80 aqui nos EUA. Sobre a definição, eu encontrei este texto, onde ao final da página 22, Schimitter recupera os dois conceitos. Portanto, o erro da Folha foi chamar TODO o período ditatorial brasileiro de uma "ditabranda", quando, na verdade, este conceito refere-se à TRANSIÇÃO da ditadura para a democracia.

Agora, mesmo levando-se em conta apenas o período restrito de transição, o Brasil foi uma "ditabranda"? Fico aqui com a análise do autor de um dos textos do livro, ex-professor de Brown, um conhecido nosso. O capítulo 6 é dele. Notem que o autor trata apenas do período entre 1974 (início do governo Geisel) até "os dias atuais" do governo Figueiredo, exatamente os dois últimos presidentes militares. Mais do que isto, o artigo trata do papel da burguesia industrial (e ele usava estas palavras, acreditem povo do partidão!) na LIBERALIZAÇÃO política. Ou seja, dava-se como certo o pano de fundo de uma transição, tal como descrito em O'Donnell e Schmitter.

Portanto, a Folha errou, fundamentalmente, ao utilizar um termo que se refere à transições para caracterizar todo um período ditatorial. E todos no debate erram ao usar o termo como "neologismo", "comparativo de número de mortes", entre outras maluquices do debate político raso no Brasil.

Abraços!

fevereiro 28, 2009

Cubanos Deportados

Declaração do Ministro da Justiça, Tarso Genro:


Lara, hoje refugiado nos EUA com o colega, disse que ele e Rigondeaux não queriam ter deixado o Brasil. A afirmação foi feita em entrevista publicada esta semana em "O Estado de S. Paulo". A informação vai contra a posição do Ministério da Justiça, que diz ter oferecido asilo aos cubanos, o que teria sido rejeitado por eles. Tarso manteve o posicionamento.


"O cubano não ficou aqui no Brasil porque não quis, os colegas dele ficaram", disse o ministro, referindo-se a outros cubanos que pediram asilo e ficaram no país --Rafael da Costa Capote (handebol), Michel Fernandez Garcia (ciclista) e Lazaro Ramirez (treinador).

 blog it

Geografia (medidas de acordo com o Google Earth):

— Distância Rio de Janeiro-Miami: 6701.13 Km

— Distância Havana-Miami: 362.92 Km

De fato, Tarso tem razão: para buscar a liberdade, fugir de Havana para os EUA exige percorrer uma distância menor do que saindo do Brasil. Faz todo o sentido os boxeadores cubanos terem se entregado.

Abraços!

P.S.: meu argumento assume que Miami está nos EUA. Acrescente 968.50 Km se quiser considerar uma cidade americana de verdade (Atlanta).

fevereiro 26, 2009

Coerência

Pergunto: se o Ministro da Justiça do Brasil acha que o poder judiciário italiano não oferece "direito à ampla defesa", o governo brasileiro está obrigado, por coerência, a solicitar ao governo italiano a extradição dos 50 brasileiros presos por falsificação de documentos naquele país, certo?


Abraços!

fevereiro 22, 2009

Caça e Caçador

País xenófobo, preconceituoso, trata os imigrantes como escravos para depois, em época de crise, descartá-los como se não fossem gente. Deveriam fazer uma política de ampla legalização do imigrante ilegal, porque não é possível que gente que trabalhe sério seja punida apenas por estar em condições irregulares no país e... ops, meu lado "humanista-defensor dos direitos humanos-trambiqueiro-onguista" veio à tona, mas não era para falar mal dos EUA. É de outro país...

Falando sério agora, onde estão as associações que gritam pedindo pela legalização do trabalho imigrante ilegal aqui nos EUA? Ou a situação não é a mesma?

Abraços!