agosto 15, 2010

DSGE e a Crítica de Lucas

Meu orientador durante o doutorado já dizia que procurar literatura nos grandes journals de economia era perda de tempo: dada a velocidade de publicação de um artigo, é muito mais vantagem buscar por novidades em economia nas páginas dos professores que trabalham na sua área de pesquisa. Com o tempo gasto nestas buscas, além de ganhar informação sobre quais os temas em voga na academia, ganha-se tempo para inovar sobre o que está, atualmente, sendo avaliado pelas grandes publicações.

Uma vertente que parece estar crescendo em importância são as análises sérias sobre a robustez dos chamados "parâmetros estruturais" em modelos DSGE em resposta à mudanças de política. Eu tinha assistido a apresentação de Frank Schorfheide falando do problema de agregação quando a heterogeneidade dos agentes é significativa, e as implicações disto na estimação de modelos DSGE (artigo aqui). Agora, Timothy Cogley aparece com um trabalho muito interessante sobre a invariância dos parâmetros quando a própria estrutura do modelo contém discrepâncias em relação ao verdadeiro processo gerador dos dados (ver aqui). Pelo abstract, Cogley é muito mais otimista sobre o futuro dos modelos DSGE do que Schorfheide, já que ele encontra ainda algum uso para estes modelos, mesmo que a estrutura esteja errada.

Está na minha lista de leituras, espero que esteja na sua.

Abraços!

7 comentários:

Anônimo disse...

Prezado Angelo

sou leitor diário do seu blog e estou passando por um momento crucial na minha vida. Faço doutorado em Economia na Unb e estou indeciso no que tange tema da tese, basicamente duas áreas Business Cycle Accounting, via os Wedges ligado aos pessoal RBC (Mcgrattan, irmãos Kehoe, Chari, e outros , logo mais ligado a growth ou modelos DSGE. Sei que são mundos distintos,kkkkk.
Já estimei função de reação para o bacen, mas nunca trabalhei em uma estrutura mais complexa com várias equações do tipo DSGE, porém na disciplina de macro 3 estudamos o livro do Gali, e pelo menos a primeira geração dos modelos DSGE está incompleta no que tange a curva IS, naõ tem gasto do Gov, não tem credito, moeda
também do lado econometrico vejo que tanto frank, como outro prof de chicago falam que estimações desses modelos são problematicos.
quais seriam as grandes questões teóricas e empiricas a ser resolvida nos modelos DSGE e quando o Samba irá sair do forno do departamento de pesquisa do bacen?

Parabéns pelo blog e pela tese está no meu note acho que vou tomar coragem e ler ela inteira

anderson

Angelo M. Fasolo disse...

Olá Anderson,

Antes de mais nada, obrigado pela visita. Vou tentar esclarecer alguns pontos para ver se te ajudo um pouco nesta fase complicada.

Primeiro, se vc buscar alguns posts meus mais antigos, sabe que eu não sou muito fã desta divisão entre modelos de água doce (RBC) e de água salgada (DSGE): a base teórica de ambas as construções é a mesma (o modelo neoclássico de crescimento), e o que ambos os grupos fazem é acrescentar fricções no modelo básico para explicar algum fenômeno não captado pela estrutura primitiva. Talvez o que diferencie mesmo os dois grupos é o que cada um dos grupos entende por "estrutural" no modelo: por um lado, a turma do RBC acha que muitos dos choques que o pessoal do DSGE coloca nos modelos não tem sentido estrutural algum; por outro, a turma do DSGE entende que existem fenômenos econômicos que, se não forem tratados de alguma forma no modelo (rigidez de preços e salários é o grande exemplo), resultam em uma má identificação dos choques ditos estruturais. No argumento deste último grupo, e que faz algum sentido, dizer que quase tudo pode ser visto como um "choque de produtividade" é uma redução inapropriada.

Qual a minha visão sobre isto? Eu sou um tanto pragmático a respeito. Se alguém tem uma idéia sobre uma estrutura bem fundamentada para explicar algum movimento da economia, não tenho nada contra que esta estrutura seja testada primeiro em um modelo de RBC, sem nenhuma fricção nominal. Isto facilita muito o entendimento dos canais de transmissão e propagação de choques dentro da economia. Também me incomoda muito (talvez um efeito colateral negativo da tese) modelos que incorporem um grande número de equações e que não se entenda, exatamente, os efeitos de cada elemento incorporado sobre a estrutura básica. Por outro lado, admito, ignorar processos de rigidez nominal de preços e salários é algo sem sentido, ainda que os modelos atuais (Calvo, Rotemberg, etc) sejam muito ad-hoc.

O livro do Gali é interessante por ser, basicamente, uma grande coletânea de tudo o que ele já escreveu (e não é pouco). Entretanto, é um livro que não toca fundo nas questões mais atuais da pesquisa na área. Sobre isto, como eu falei, é muito melhor buscar o que os bons pesquisadores na área (inclusive o próprio Gali) estão escrevendo para ter uma noção sobre o que é relevante hoje em dia. Aí entra a sua pergunta: questões teóricas e empíricas para estes modelos? Bom, como falei no post, está em voga questionar o quão "estruturais" mesmo são os parâmetros destes modelos. Muita gente usa estruturas com parâmetros variantes no tempo, ou mesmo, para os mais avançados, mudanças de regime markovianas para entender o que permanece constante, ou "estrutural", depois do modelo ser estimado. Outro ponto importante, que está em voga em função da crise, é a condução de política monetária e fiscal quando as taxas de juros nominais estão próximas de zero. Estimar os multiplicadores fiscais neste ambiente não é uma tarefa trivial. Também em função da crise, e mais na linha do business cycle accounting, estão crescendo estudos buscando entender se o longo período de crescimento e calmaria na economia americana ("great moderation") foram resultados de boas políticas ou apenas sorte na realização dos choques. Acreditava-se, até o início da crise, que boa política estava contribuindo para o período de crescimento; hoje em dia, este resultado já está sendo questionado.

Bom, espero que as sugestões que deixei aqui tenham ajudado um pouco. Boa sorte na sua tese!

Abraços!

Anônimo disse...

Prezado Angelo

Primeiramente muito obrigado pela resposta é que resposta. É gratificante saber que jovens Phd com grande potencial, estão seguindo o comportamento dos principais lideres de pesquisa em serem altamente atenciosos e prestativos.
Sobre modelos DSGE sempre questionei o Prof. Joaquim sobre como os microfundamentos que garante a rigidez de preços e salarios são inseridos nos modelos, tipo Calvo, Rotemberg outro microfundamento pouco explorado Taylor e Fischer das rigidezes de contrato).
Gostei muito do seu argumento " que é interessante testar determinados choques primeiro em um modelo RBC puro e depois ir inserindo as fricções. Parece um movimento primeiro RBC e depois New Keynesian.
Confesso que hoje estou mais inclinado a estudar Geração RBC Business Cycle Accounting pessoal de Minessota e fed de Mineapolis, estudar os Wedges determinantes para a economia brasileira e explorar mais wedges do Capital humano e da informação.

Grande abraço sucesso no Bacen no Depep faço parte do grupo de alunos da unb que recebe convites para os seminários do Bacen quando tiver algo nessa área irei fazer visita e conhece-lo pessoalmente.

Anderson Teixeira

Anônimo disse...

Prezado Angelo

Acho que fui infeliz no elogio a tua resposta, ela é MARAVILHOSA CARA, to lendo ela pela quinta vez.
No que tange ao ultimo topico da sua resposta do pessoal do RBC business cycle accounting estudos sobre (great moderation) vc lembra de alguma referencia básica, pois tenho referencias explorando os Wedges.


Parabéns cara.

anderson Teixeira

Angelo M. Fasolo disse...

Oi Anderson,

Achei este artigo de 2009 do Canova onde ele testa a estabilidade dos parâmetros de um modelos DSGE bem simples através de recursões na amostra. O início do texto tem uma boa revisão de literatura, com a maioria das referências básicas no tema.

http://www.crei.cat/people/canova/JEEA_2009_7_4.pdf

Abraços!

Anônimo disse...

Caro Angelo,

Sou aluno de graduação, ainda, mas a vastidão de possibilidades pro futuro me fazem pensar constantemente no planejamento das coisas...
Problema é o seguinte, meu amigo...Eu tenho absoluto interesse em fazer o PhD nos EUA. No entanto, a perspectiva de não ser independente financeiramente até os 20 e muitos, 30 não me é muito atrativa.
Então, teu blog aqui me chamou a atenção, pq vc é economista do BACEN, certo ?
Então eu pergunto: qual a política do BACEN quanto a enviar seus funcionários para o PhD lá fora? Há convênios estritos ou é se pode ir para qualquer universidade? Uma vez aprovado no concurso (tds fazem concurso, certo?), como se dá a alocação dos aprovados ? Essa última eu pergunto porque seria muito interessante fazer parte do departamento de pesquisa...

Um abraço,

JA

Angelo M. Fasolo disse...

Prezado JA,

Antes de mais nada, obrigado pela visita.

O Bacen tem um programa de pós-graduação para os funcionários que libera os aprovados em concorrência interna para programas de pós que sejam de interesse do Banco. O Bacen mantém os salários durante o curso, mas exige que o tempo gasto fora do Banco seja compensado aqui dentro. Por exemplo, eu fiquei 4 anos fora fazendo o doutorado, e agora não posso sair do banco nos próximos 4 anos, sob pena de ter que devolver todos os rendimentos que tive no período. O programa não tem convênio com nenhuma instituição: eu concorri como qualquer outro candidato a uma vaga em Duke e nas outras universidade que apliquei.

Minha sugestão, para quem está saindo da graduação agora, é a seguinte: siga a trilha normal de todo o estudante que pretende chegar ao PhD, independente do local. Invista na prova da ANPEC, faça um bom mestrado, capriche nas notas, tire algumas publicações da dissertação. Uma vez feito isto, para sair para o doutorado, as universidades brasileiras já conseguem estabelecer os canais apropriados para enviar seus alunos para bons cursos. Logo, o investimento no mestrado vale a pena, ainda que sob a pena de viver dois anos com bolsa.

Abraço!