setembro 26, 2008

Obama Vai Ser Eleito

Sim, podem apostar. Falo sem dúvidas quanto a isto. Só um desastre, um fato completamente fora da curva evita este resultado. Barack Obama será eleito Presidente dos EUA. E não será pelos motivos que a imprensa do resto do mundo (e boa parte da americana também) escreve a respeito: ele não será eleito por superar o fato de ser negro; ele não será eleito pela perspectiva de "mudança" (o que quer que "mudança" signifique); ele não será eleito pela brilhante oratória.

Barack Obama será eleito pela incapacidade, incompetência e falta de preparo, por incrível que pareça, do "maverick" John McCain. McCain está mostrando toda a falta de estratégia do Partido Republicano para lidar com o problema da crise financeira do país, sendo capaz de gerar cenas ridículas, como a do Secretário do Tesouro se ajoelhando diante da líder Democrata no Congresso, suplicando para que as negociações do pacote não fossem interrompidas, e tendo que ouvir calado, aceitando, que a culpa era... do Partido Republicano!

Diga-se: toda a confusão que resultou na cena patética de final de reunião começou com as demandas lamentáveis dos líderes republicanos (corte de impostos junto com o dinheiro para salvar o mercado??? Parece tara este negócio de corte de impostos para os Republicanos), seguidas das imagens de McCain apenas contemplando as bobagens solicitadas pelo próprio partido. Enquanto isto, Obama, também presente na reunião, se comportava como o "aluno aplicado", fazendo perguntas objetivas ao Secretário Paulson, tentando entender a fundo os efeitos do pacote.

Talvez a melhor definição do fator que irá eleger Obama seja esta: "aluno aplicado". Diante de uma crise que ninguém sabe ainda a dimensão, Obama se preocupa em estudar o problema, em se cercar de opiniões especializadas, em resolver todas as suas dúvidas. Ele emite alguma opinião definitiva sobre a crise? Não. Ele oferece alguma proposta relevante para a resolução da crise? Não. Mas ele mostra interesse. Ele quer saber o que está acontecendo. Mais do que isto, ele admite que certas promessas que ele tinha feito, com a crise, devem ser repensadas.

Este tipo de comportamento é suficiente para eleger um presidente? Sim, se o seu adversário estimula o erro, implode negociações, submete a área técnica do governo do seu partido a uma humilhação pública diante dos líderes da oposição. E isto vai se refletir no debate de hoje à noite, tenho certeza: quando o tema economia aparecer, o aluno aplicado, que estudou, vai colocar McCain na parede, pedindo uma opinião clara sobre a crise. E a sua resposta será lembrar que foi prisioneiro de guerra no Vietnã, que é um "maverick" independente do governo do próprio partido e balbuciar outros fatos referentes ao seu passado.

McCain foi muito inteligente na escolha e no "timing" do anúncio da candidata à vice-presidente, quebrando o efeito da convenção democrata sobre os eleitores e ganhando a pauta. Diante da crise econômica, entretanto, ele não sabe como reagir, assumindo posições neutras, quando não populistas, a respeito de um assunto sério. Lembra muito um candidato, no Brasil, que vestiu uma jaqueta com o logotipo de estatais, renegando o que o governo de seu partido fez (e muito bem) anteriormente, só para manter uma certa pose de independente.

Independência não pode ser confundida com burrice e teimosia.

Abraços!

3 comentários:

mmartinelli disse...

Há um fator decisivo (ao menos no que diz respeito à crise econômica) que são as companhias dos dois candidatos.

É fato: Barack Obama não é um especialista em economia, porém, como vc mesmo disse, mostra-se um ``aluno aplicado''. É muito mais do que McCain vem tentando mostrar. Este último, mesmo em meio a uma crise épica, continua sem mostrar interesse algum em assuntos econômicos.

Bom, voltando ao ponto das companhias dos candidatos:

Barack Obama vem sendo aconselhado pelos seguintes personagens: Robert Rubin, Lawrence Summers e Paul Volcker (esse último é um dos meus heróis econômicos). Ou seja, não restam dúvidas quanto às credenciais destes senhores. Mais: a bolsa de apostas indica que o mais provável Secretário do Tesouro de um eventual governo Obama é Timothy Geithner que é o atual presidente do Fed de NY.

John McCain: o único consiglieri (coloquei em italiano de propósito. qualquer alusão à máfia é mera coincidência) on-the-record dele é, nada mais nada menos, que Phill Gramm. Phill Gramm é ex-senador que sepultou o Glass-Steagel Act que, editado em meio à grande depressão, serviu para regular a atividade bancária separando bancos comerciais de investimento. É o mesmo que chamou os americanos de ``chorões'' já que a crise é mais de cunho psicológico do que real, segundo a opinião dele. No, i'm not making this up! Por último, McCain já deixou claro que Phill Gramm será o seu Secretário do Tesouro caso vença as eleições.

A questão do provável próximo Secretário do Tesouro é fundamental à medida que o Congresso estuda a edição do pacote de $700bilhões de ajuda ao setor financeiro. O Secretário do Tesouro será o responsável pela gestão dessa pequena quantia (que pode vir a ser maior ainda).

Resumindo: sou da opinião que Barack Obama deve ser eleito não pelas falahas do seu adversário (uma vitória quase que por W.O., portanto) mas sim por ter mostrado (até aqui ao menos) ser o candidato melhor preparado para o cargo, principalmente no que diz respeito à assuntos de cunho econômico/financeiro.

O resto que a MMS (mainstream media) vem escrevendo a respeito das eleições é besteira (aqui tanto faz mídia americana ou a internacional).

Um abraço,

Marcelo

Angelo M. Fasolo disse...

O que me surpreende, Marcelo, é que Obama, mesmo sem tomar posição alguma sobre a crise, sem dizer um "ai" a respeito do que fazer, ainda está em melhores condições do que McCain para conduzir o país. De um auto-proclamado "maverick", esperava-se um pouco mais do que o tradicional urro pedindo redução de impostos.

A impressão que tenho é que McCain tentou ganhar a eleição acreditando que a simples mobilização dos eleitores típicos republicanos fosse suficiente. E enquanto a crise não entrou na pauta, ele grudou em Obama. Diante da crise, ele tinha duas escolhas: chegar para o eleitorado dele e dizer "erramos, vamos corrigir logo isto"; ou partir para o populismo barato buscando se grudar cada vez mais nas bases. Ele optou pela segunda, em uma decisão, na minha opinião, não muito esperta.

Sobre o pacote em si, acredito que o mercado só acalme mesmo quando tiver alguma clareza sobre o quadro político: como o Brasil em 2002 mostrou, saber com quem estará lidando daqui para frente passa a ser o fundamental. E a superioridade democrata é inquestionável.

Abraço!

mmartinelli disse...

Concordo com vc inteiramente que Obama não disse nada de concreto até agora em relação ao o que faria como também não disse McCain (a não ser que mandaria embora o Chairman do SEC).

Porém, nesse ponto, concordo com os dois. Por um motivo muito simples: politicamente eles não tem o que ganhar expondo os seus pontos de vista a essa altura. Se explicitarem as idéias deles e o Governo segue outra direção e acaba dando certo eles perdem cacife político. Além disso, o eleitorado pode achar que é um pouco arrogante do candidato expor o seu plano ANTES de ganhar a eleição.

O caminho que os dois tomaram de soltar um comunicado conjunto parece que foi o mais adequado e, politicamente, neutro para ambos os lados: ninguém ganha e ninguém perde.

Vc tem razão também quanto aos erros do McCain. Têm sido sucessivos e, para que ele pudesse ter alguma chance de vencer não poderia cometer erros. Mesmo assim, o meu ponto é que, independente dos erros de McCain, a campanha de Obama parece muito bem administrada. Cometeu alguns erros sim mas nada que comprometa as chances dele vencer mesmo na hipótese de que a campanha adversária fosse igualmente eficiente.

Aqui no Brasil há um movimento em alguns círculos (o Reinaldo Azevedo é o principal) de associar a imagem de Obama a Lula. Tive até algumas discussões fortes aqui em relação a isso. Como que se compara um vagabundo (Lula, é claro) com um professor da Universidade de Chicago formado em Harvard? Para mim a comparação é ridícula. Isso posto a messianização da candidatura Obama (que nos EUA significa comparar com JFK), é, sim, análoga a trajetória de Lula embora ache que exista uma enorme diferença em relação ao conteúdo: Obama tem uma história para contar enquanto Lula, bom Lula também tem, pena que é pura ficção made in ABC. McCain, ao menos para mim, tem mais em comum com Lula do que Obama: só o que tem a mostrar no currículo de positivo é ser um ex-POW. A história de que é um maverick para mim é puro truque de marketing.

Sempre achei que o Partido Democrata nos EUA é o clone norte-americano do PSDB (ou vice versa). Por isso tenho mais simpatia pela candidatura do Obama. Nada mais do que isso. Quanto a McCain e os Republicanos? Minha opinião é que a melhor coisa que pode acontecer aos conservadores é justamente perder esta eleição. Bush rachou o partido que, após conseguir tomar o controle do Congresso no meio de um popular governo Clinton, cedeu o controle aos Democratas (que devem aumentar ainda mais a liderança em novembro). Assim acho necessário que o partido Republicano sofra uma derrota de modo a poder efetuar uma troca nos grupos com poder dentro do partido.

Por último, quando digo acima que Obama é o candidato melhor preparado o que quero passar é que acho ele melhor preparado que John McCain. Nada mais. O que me preocupa em John McCain é que ele me passa a imagem de um turrão que só está interessado em impor a força dos EUA pela via militar, nada mais do que isso. E isso justamente no momento em que o poderio econômico americano está sendo em declínio. E, historicamente, poder militar e poder econômico sempre andam juntos. O problema aí é que, hoje, nenhum país (AINDA) ameaça os EUA militarmente, porém, o faz no campo econômico (China principalmente). O problema a meu ver é que a medida que os EUA perceberem que perdem poderio econômico (e isso deve acontecer mais rapidamente agora com essa crise monstruosa) a pessoa errada na Casa Branca pode tentar se impor pela via militar, e sem provocação.

Em suma, a eleição americana promete gerar muitas discussões ainda. Só espero que a sua previsão quanto ao desfecho esteja correta.

Abraço!