dezembro 21, 2008

IPEA: Revendo Élio Gaspari

Em 5 de março de 2000, Élio Gaspari escreveu uma coluna nos principais jornais do país tratando do concurso do Banco Central que discriminava positivamente, através dos critérios de diplomação, os candidatos com titulação no exterior e publicações em revistas acadêmicas de fora do país. Naquela coluna (íntegra aqui), Gaspari escreveu:

clipped from www2.uol.com.br

Ninguém aqui é bobo. Os critérios de titulagem inventados pelo Banco Central destinavam-se a favorecer os candidatos com formação acadêmica semelhante à que a ekipekonômica supõe ter. Tratou-se de triagem ideológica, feita por gente que nem história sabe. Se soubesse, lembraria que o fato de FFHH trabalhar na Cepal já foi considerado nódoa. (”Fiel súdito de Moscou”, para o Centro de Informações da Aeronáutica.)

Durante a ditadura, censurava-se o pensamento alheio, mas não se impunha aos aborígenes uma corrente exclusiva de pensamento alienígena. Em cinco anos, FFHH não inibiu o pensamento de ninguém. Sua elegância diante da divergência honra o Governo e ultrapassa a da oposição. Não é justo que um cérebro de dobradiça tenha feito o BC passar pelo vexame de publicar um edital que só encontra paralelo nos documentos coloniais do século XVIII.

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Hoje, Gaspari publica coluna em que comenta o exame de seleção de técnicos em planejamento para o IPEA. Entre as pérolas por ele destacadas do exame (muitas outras aqui), temos:

Exemplificando, primeiro pela agressão ao idioma, numa pérola pinçada por Madame Natasha: "Considerando aspectos da configuração das redes urbanas regionais no Brasil e do imbricamento dessa morfologia com a economia produtivista nacional, julgue os itens que se seguem (...)."


A prova agrediu a complexidade do pensamento do sociólogo Francisco de Oliveira ao atribuir-lhe a afirmação de "não haver capitalismo monopolista sem o Estado". Tudo bem, mas Dadá Maravilha poderia ter dito a mesma coisa. (Nunca é demais lembrar que em 2003 Nosso Guia mandou tirar um texto de Oliveira de um livro publicado pelo Instituto da Cidadania.)


Uma questão mostra a opção por conhecimentos inúteis: "Uma política de conservação dos cavalos-marinhos deve ser voltada para o Gerenciamento Costeiro e Marinho e a Fiscalização Contra o Comércio Ilegal, dispensando uma articulação com a Política Nacional de Recursos Hídricos e as práticas agrícolas no Continente." Certo ou errado?
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Entretanto, o que ofende, no texto de Gaspari, é a referência geral sobre o exame: "[a]gora, o comissariado do Ipea foi por um caminho parecido e piorado. Abriu um concurso para 62 vagas de técnico de planejamento (R$11 mil mensais) e submeteu os candidatos a uma prova que ofendeu o idioma, banalizou a qualificação dos candidatos e beneficiou conhecimentos de almanaque." Além disso, "[a]cusar os comissários de terem produzido um teste de conhecimento esquerdista é elogio impossível. A prova é apenas burra."

É mesmo, Gaspari?!?! Quando a prova é "esquerdista", ainda que com qualidade, o exame deve ser elogiado; quando o exame cobra titulação favorecendo universidades que criam "sábios para a ekipekonômica", para usar suas expressões, é "triagem ideológica"? A inferência direta do que escreve Gaspari neste artigo é clara: se o exame fosse esquerdista, mas não privilegiasse "conhecimento de almanaque", estaria tudo bem.

E que não se diga que o autor dos textos não tenha dado uma chance ao IPEA: a crítica ao exame do Banco Central nasceu no edital. Quem leu o edital do IPEA já vinha gritando, faz tempo, em relação ao conteúdo esperado no exame. Talvez, se o concurso do IPEA tivesse feito uma "prova inteligente", o texto de Gaspari no domingo não teria razão de ser, de acordo com sua argumentação.

O concurso do Banco Central criticado por Gaspari aprovou apenas um candidato, que depois, por receber outras propostas, não tomou posse. Sua qualificação permitiu que outras instituições (inclusive "a banca" de Gaspari) corressem atrás do talento. Os salários do Banco Central eram muito defasados em relação à iniciativa privada. Agora, o IPEA oferece salários competitivos para aprovar gente que entenda de conservação de cavalos-marinhos. Espero, sinceramente, que, se uma escolha entre os dois tipos de exames tiver que ser feita, que o Banco Central repita os critérios e questões do concurso de 2000. Quem sabe, com os salários atuais e com um número maior de possíveis candidatos voltando de bons cursos no exterior, mais gente se anime a ficar no Banco.

Por fim, encerro o texto adaptando o último parágrafo do texto de 2000 sobre o concurso do BC:


"Num país cujo presidente do IPEA fala de coisas como "tributação sobre produção imaterial", e que o resto da equipe econômica não implementa seu programa, ainda que seja governo, seria o caso de se pensar se a coisa não está indo longe demais. O Governo de Cuba é extremamente restritivo na concessão do direito de sair de seu território. Quando permite, seus asseclas vigiam seus cidadãos para evitar que busquem asilo político. Tem todo o direito de agir assim. O que não faz sentido é que meia dúzia de senhores que podem entrar e sair da ilha (y muchas cositas más) por serem filiados a um determinado partido restrinjam, em Pindorama, com critérios cubanos, o direito de brasileiros bem preparados de disputar um emprego no IPEA."



Abraços!

4 comentários:

mmartinelli disse...

Excelente post. Digno de um Reinaldo Azevedo.
Sempre achei o Gaspari um idiota total. Por isso não leio suas colunas. É mais um sintoma da imprensa lotada de esquerdinhas de quinta categoria (ou, olhando mais para os colunistas de economia, o que o Schwartsman chama de keynesianos de quermesse).
A realidade é que há dois pesos e duas medidas: instituições que nem o BC que são vistas como de direita, tem todas as suas ações analisadas sob a ótica de que tudo o que faz é "feio", enquanto que o IPEA, dominado pelos tais keynesianos de quermesse (acho que seria até um elogio chamá-los disso), fica livre para fazer o que quiser contanto que não fique óbvio.
Essa batalha está perdida I'm afraid, resta saber se eles vão ganhar a guerra. Nesse caso, seria melhor você e a Chris ficarem por aí mesmo.
Abraços,
Marcelo

Angelo M. Fasolo disse...

Marcelo,

Obrigado pelo comentário, ainda que eu fique com o pé um pouco atrás quando comparado com o Reinaldo Azevedo: ele escreve bem, mas tem fases meio "superstar", em que a coisa perde a graça e fica ofensiva.

O Gaspari atingiu o auge quando publicou os livros sobre a ditadura (de fato, todos muito bons), mas depois daí, pouco sobra. Sobre os jornalistas com (falta de) formação, às vezes acho que é preguiça, mesmo: eles devem pegar o primeiro livro de economia que vêem pela frente (seja qual for), interpretam do jeito que lhes passa pela cabeça, colocam um pouco de intuição porca, e saem falando o que lhes passa na cabeça.

Por fim, acho que o maior prejuízo que o atual governo gera, em termos de gerenciamento do funcionalismo, é ao se negar a enfrentar os problemas de (falta de) incentivos, de premiação para o mérito, dentro da máquina pública. Fazer um concurso para o IPEA em que o aprovado deve saber sobre a criação de cavalos-marinhos, e pagar os mesmos R$11 mil para quem vai analisar conjuntura, por exemplo, é um absurdo! Depois o cara troca o emprego por outro que pague melhor, e é chamado de egoísta, acusado de usar o setor público para fazer currículo, etc.

Abraços!

Chris disse...

Antes o problema fosse só o cara trocar de emprego... o estrago maior é o que ele vai fazer enquanto estiver no emprego (ou vc. acha que alguém efetivamente qualificado saberia dar as respostas "certas" nas provas, incluindo as de economia?). Na verdade, com a turma que vai entrar, quanto mais rápido eles acharem outro emprego, melhor para o país.
Chris
PS: Sobre a primeira frase "ainda que eu fique com o pé um pouco atrás quando comparado com o Reinaldo Azevedo" eu já falei em outro comentário: minha avó já dizia, "modéstia e água benta nunca fizeram mal a ninguém!" hahahahahahahahahahahahahahahahahahahaha

Angelo M. Fasolo disse...

Chris,

Isto só reforça o meu ponto: imagine que, no concurso, metade dos aprovados sejam bons, a outra metade de ruins. Se o salário fosse "discriminatório", não teria problema algum: ao menos metade dos servidores fariam um esforço para trabalhar, e o problema estaria apenas no concurso, que não selecionou apenas os melhores.

Sem esta discriminação, não apenas o cara bom não vai se esforçar, como ao buscar outro emprego, vai deixar o quadro de servidores formado apenas por caras ruins. Aí o problema é tanto o concurso quanto o salário.

Sobre a comparação: agradeci ao que suponho ser um elogio sobre o texto, tendo em vista que o Reinaldo, como falei, tem o lado estrela que, muitas vezes, resulta em textos ruins. Além disso, do "Arrogant and Bastard" não se pode pedir modéstia... ehehehehe

Beijos!