Em 5 de março de 2000, Élio Gaspari escreveu uma coluna nos principais jornais do país tratando do concurso do Banco Central que discriminava positivamente, através dos critérios de diplomação, os candidatos com titulação no exterior e publicações em revistas acadêmicas de fora do país. Naquela coluna (íntegra aqui), Gaspari escreveu:
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Hoje, Gaspari publica coluna em que comenta o exame de seleção de técnicos em planejamento para o IPEA. Entre as pérolas por ele destacadas do exame (muitas outras aqui), temos:
Exemplificando, primeiro pela agressão ao idioma, numa pérola pinçada por Madame Natasha: "Considerando aspectos da configuração das redes urbanas regionais no Brasil e do imbricamento dessa morfologia com a economia produtivista nacional, julgue os itens que se seguem (...)." |
Entretanto, o que ofende, no texto de Gaspari, é a referência geral sobre o exame: "[a]gora, o comissariado do Ipea foi por um caminho parecido e piorado. Abriu um concurso para 62 vagas de técnico de planejamento (R$11 mil mensais) e submeteu os candidatos a uma prova que ofendeu o idioma, banalizou a qualificação dos candidatos e beneficiou conhecimentos de almanaque." Além disso, "[a]cusar os comissários de terem produzido um teste de conhecimento esquerdista é elogio impossível. A prova é apenas burra."
É mesmo, Gaspari?!?! Quando a prova é "esquerdista", ainda que com qualidade, o exame deve ser elogiado; quando o exame cobra titulação favorecendo universidades que criam "sábios para a ekipekonômica", para usar suas expressões, é "triagem ideológica"? A inferência direta do que escreve Gaspari neste artigo é clara: se o exame fosse esquerdista, mas não privilegiasse "conhecimento de almanaque", estaria tudo bem.
E que não se diga que o autor dos textos não tenha dado uma chance ao IPEA: a crítica ao exame do Banco Central nasceu no edital. Quem leu o edital do IPEA já vinha gritando, faz tempo, em relação ao conteúdo esperado no exame. Talvez, se o concurso do IPEA tivesse feito uma "prova inteligente", o texto de Gaspari no domingo não teria razão de ser, de acordo com sua argumentação.
O concurso do Banco Central criticado por Gaspari aprovou apenas um candidato, que depois, por receber outras propostas, não tomou posse. Sua qualificação permitiu que outras instituições (inclusive "a banca" de Gaspari) corressem atrás do talento. Os salários do Banco Central eram muito defasados em relação à iniciativa privada. Agora, o IPEA oferece salários competitivos para aprovar gente que entenda de conservação de cavalos-marinhos. Espero, sinceramente, que, se uma escolha entre os dois tipos de exames tiver que ser feita, que o Banco Central repita os critérios e questões do concurso de 2000. Quem sabe, com os salários atuais e com um número maior de possíveis candidatos voltando de bons cursos no exterior, mais gente se anime a ficar no Banco.
Por fim, encerro o texto adaptando o último parágrafo do texto de 2000 sobre o concurso do BC:
"Num país cujo presidente do IPEA fala de coisas como "tributação sobre produção imaterial", e que o resto da equipe econômica não implementa seu programa, ainda que seja governo, seria o caso de se pensar se a coisa não está indo longe demais. O Governo de Cuba é extremamente restritivo na concessão do direito de sair de seu território. Quando permite, seus asseclas vigiam seus cidadãos para evitar que busquem asilo político. Tem todo o direito de agir assim. O que não faz sentido é que meia dúzia de senhores que podem entrar e sair da ilha (y muchas cositas más) por serem filiados a um determinado partido restrinjam, em Pindorama, com critérios cubanos, o direito de brasileiros bem preparados de disputar um emprego no IPEA."
Abraços!


